[Resenha] Mundo Novo - Chris Weitz

22 de jul de 2015
Mundo Novo - Chris Weitz
ISBN-10: 8565765474
Ano: 2014
Páginas: 328
Idioma: português
Editora: Seguinte
Classificação: 
Página do livro no Skoob
Neste mundo novo, só restaram os adolescentes e a sobrevivência da humanidade está em suas mãos. Imagine uma Nova York em que animais selvagens vivem soltos no Central Park, a Grand Central Station virou um enorme mercado e há gangues inimigas por toda a parte. É nesse cenário que vivem Jeff e Donna, dois jovens sobreviventes da propagação de um vírus que dizimou toda a humanidade, menos os adolescentes. Forçados a deixar para trás a segurança de sua tribo para encontrar pistas que possam trazer respostas sobre o que aconteceu, Jeff, Donna e mais três amigos terão de desbravar um mundo totalmente novo. Enquanto isso, Jeff tenta criar coragem para se declarar para Donna, e a garota luta para entender seus próprios sentimentos - afinal, conforme os dias passam, a adolescência vai ficando para trás e a Doença está cada vez mais próxima.
Resenha:
Se eu soubesse o deleite que seria ler esse livro não teria procrastinado tanto a leitura dele. A obra de Chris Weitz, que também é diretor de filmes como A Bússola de Ouro (2007), Lua Nova (2012) e Cinderela (2015), é simplesmente a melhor coisa que li ambientada num cenário pós-apocalíptico. Quem assistiu a "Mad Max - Estrada da Fúria" pode esperar algo semelhante nas mais de 300 páginas que formam essa história. Talvez seja exagero meu, mas a empolgação que senti o lendo foi a mesma que tive ao ver o filme nos cinemas.

Os adolescentes foram os únicos sobreviventes ao Ocorrido. Um vírus dizimou todas as crianças e adultos do globo terrestre. A epidemia é tão bizarra que ao completar 18 anos todos os adolescentes morrem. São poucos os que duram mais que algumas semanas após o aniversário de maioridade. É nesse ambiente escaço de alimentos, água e esperança que nossos protagonistas encontram uma razão para lutar. Veja bem, essa premissa parece até esses clichês de sempre, mas não é. Divididos em tribos, os jovens desenvolvem formas próprias de organização. Eles tentam estar armados até os dentes e aproveitar a vida ao máximo. Sem limites, culpa ou reflexões mais aprofundadas sobre qualquer coisa. Afinal, por que se preocupar com o amanhã se todos irão morrer antes mesmo de saber o que é ter responsabilidade? Quando a expectativa de vida cai, os pudores somem. Apesar dessa ideia generalizada guiar a trama e muitos grupos espalhados pelos Estados Unidos, a tribo que acompanhamos no enredo, a Washington Square, não segue tão á risca esse fundamento.

Jefferson perdeu o irmão para a Doença e está decidido a ir busca de soluções. Quando seu amigo Crânio revela a existência de uma revista com estudos sobre a arma biológica responsável por toda a catástrofe em algum lugar muito distante, ele resolve organizar uma expedição rumo ao perigo. Crânio acredita que com essas informações ele pode encontrar a cura. Não é preciso de muitos motivos para convencer Peter a acompanhá-los. Gay, afro-descendente e o personagem mais icônico de todos, ele nasceu para ser uma estrela e está disposto a viver um pouco. O tédio já estava comendo o seu juízo mesmo. Quem reluta um pouco em embarcar nessa estrada talvez sem volta é Donna. Ela tinha um quase relacionamento com o irmão de Jefferson e só decide-se positivamente quando lembra de um pedido feito pelo finado: nunca abandonar Jeff.

Dá para imaginar como seria uma sociedade "governada" por adolescentes? A tribo que protagoniza a história até faz parecer ser fácil, mas a cada obstáculo que eles encontram pelo caminho fica claro que tudo se transformou em um caos. Jovens trocando garotas por porcos, jovens lutando até a morte em rings para conseguir dinheiro, jovens que imitam fielmente o comportamento dos adultos de Antes. Ambiciosos, covardes, assassinos. Há claramente críticas ao consumismo e todas as banalidades sociais que cultivamos. Políticas, de comportamento, de coração mesmo. Como o livro foi escrito em 2014 as referências são bem atuais. O que me impressiona é que o autor conseguiu incluir iPhones, o Snapchat e até o Netflix na história sem parecer algo babaca. Sim, eu tenho sérios problemas com gente que tenta ser descolado inserindo elementos assim na trama e acaba soando leviano demais. Ponto para o Weitz!

A narrativa é intercalada entre Jefferson e Donna. Como não amá-los? Como? Vocês não tem ideia do que foi feito aqui. Donna é insegura. Jefferson é superinteligente. Eles se amam, mas calma que o romance não é o foco aqui. Até temos uma garota para atrapalhar o lance deles, mas é tudo tão tenso, desenvolvido em meio a chuvas de balas, explosões e perseguições que é uma espécie de pausa para respirar toda essa problemática sobre eles ficarem juntos ou não. Enquanto Jeff foca mais no futuro, Donna relembra bastante o passado. Achei esse equilíbrio fantástico. Até as vozes, a forma de narrar de cada um se encaixa perfeitamente com a proposta. Os personagens secundários incríveis. Tenho que comentar sobre Minifu. Ela meio que nunca esteve escalada para a missão encontrar-a-cura, mas se mostra essencial para o solucionamento de problemas. Ah, ela é a causa de muitos também.

Jefferson acredita que toda essa vida louca que estão vivendo é reflexo da falta coletiva de esperança. Se houvesse, por menor que seja, a possibilidade de o mundo não acabar, de as pessoas não morrerem, nada seria levada da forma errônea atual. Não há preocupação em cultivar a longo prazo, reconstruir, reformar, reerguer, planejar. O que importa é o agora, o presente, e isso simplesmente não deveria ser o suficiente. A remota possibilidade da cura parece loucura para todos do grupo menos Crânio e ele, claro.

Os capítulos finais são tão curtinhos, parecem compensar toda a falta de fôlego que percorre o livro todo. É um desfecho inesperado que faz surgir incontáveis dúvidas. Mal posso esperar pela sequência - que juro, vou devorar assim que chegar por aqui.

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