QUANDO EU ERA UM POWER RANGER

19 de mai de 2016
Aos 8 anos de idade eu andava de mãos dadas com meu melhor amigo da escola e achava isso a coisa mais legal de todas. Éramos dois super-heróis mais que prontos para enfrentar o mundo. Uma versão bem diferente desse mundo em que vivo hoje, mas ainda assim gigante. Eu não tinha ideia de quanta coisa vinha pela frente, se não teria me poupado um pouco. Sempre fui de pensar demais. Eu sempre estava lá na frente me preparando para a guerra. Para o pior. Agora vejo que não adianta ser tão pessimista, nem brigar para ser o ranger vermelho toda santa vez. As coisas podem ser cem vezes mais difíceis assim ou estupidamente mais fáceis. Leves. A gente não conhece de verdade quem segura a nossa mão. Porque a maior guerra de todas não se passa aqui fora. É dentro da nossa cabeça, no fundo do coração que a gente se destrói, esquece e direciona esforços para o errado. A nossa parte a gente faz. Faz direitinho. E tem que ser assim mesmo. No fim das contas quem decide é o outro. Eu já devia ter aprendido.

A vida já foi sabatina de tabuada do nove, ditado de palavras com dígrafos e maquetes de isopor e tinta guache. Já foi transar pela primeira vez, pela segunda e terceira e ainda assim se descobrir mais virgem do que nunca a cada toque. A vida já foi descobrir a madrugada, o álcool e pessoas novas que combinadas a tudo isso tornam músicas e lugares memoráveis. Já foi noites em claro, dias longos demais e segundos que deveriam ter sido convertidos em horas. Eu sei que a vida hoje também é medo, insegurança e dúvida. Um monte de coisa que não existia quando eu só precisava acordar cedo para ver desenho. A vida é a faculdade que a gente se esforça em ver sentido e o trabalho que a gente adora, mas ainda não passa de um estágio temporário. A vida é aquela pessoa que você julgou errado, aquela outra que você decepcionou e mais uma que te fez perder o chão por não estar pronta para o que você tinha a oferecer. E, olha, tudo o que você tinha a oferecer era o que de mais bonito existia.

A vida é a história que deveria ter tido um fim diferente e a história que não teve um fim sequer. É o amigo que te salva de uma cilada e a amiga que te faz brigadeiro e cachorro-quente quando você precisa recontar um causo triste que um dia vai ser engraçado. A vida são todas essas pessoas que agem sem pensar ou pensam muito bem antes de agir. A vida é não saber a hora de parar por mais que você tenha sido obrigado a frear bruscamente várias e várias vezes pelos mesmos problemas. É seguir em frente quando você gostaria de passar uma temporada na sua cama.

É o amigo que te liga de madrugada querendo conselhos amorosos que você não sabe dar. E dá mesmo assim. É o amigo que deveria pensar mais em si e deixar de lado quem não está pronto para estar em um relacionamento. Um amigo que pode ser você daqui a pouco. A vida são todas essas situações que te fizeram chorar no colo da mãe, no chuveiro, no quarto e por último, e não menos necessário, na balada. No meio da porra de uma balada.

Aos 21 anos a coisa mais legal de todas não é ter alguém que segure a sua mão. Acredite. Se tem algo que aprendi na vida, essa que eu tanto mencionei aqui, é que ela só está completa quando estamos em paz. E guerra nenhuma traz paz, não importa quem a enfrente com você. No final das contas imaturidade é insistir nisso. Em quem já te ofereceu tudo que tinha. Imaturidade é fazer parte de algo que te faz mal. Fazer parte de quem te fez mal.

2 comentários:

  1. porra felipe, que texto foda

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  2. Anônimo18:42

    Meus parabéns. Não que seu texto precise dele para ser mais perfeito do que ele já é. Mas você descreve e muito bem, qualquer um que esteja a passar por essa crise dos 20 e poucos anos, até dos que nem 20 tem, como eu que tenho 19.
    "A vida são todas essas situações que te fizeram chorar no colo da mãe, no chuveiro, no quarto e por último, e não menos necessário, na balada. No meio da porra de uma balada." Felipe Miranda

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