Quando vejo timing e sorte numa sexta-feira 13

13 de jan de 2017
O transporte público não é o meu cenário predileto para contos de fadas, mas hoje eu vi algo muito bonito acontecer dentro dele. Eu vi timing e sorte atuando de uma forma brilhante. Havia mais pessoas em pé do que sentadas, como de costume, alguma canção sertaneja pouco conhecida tocando na rádio e o sol das 8h já queimava. Me queimava, inclusive, mas em dois seres humanos em especial os raios de sol causavam um efeito diferente. Dava brilho a algo que estava prestes a acontecer. Uma espécie de presságio.

Ela encostada na janela, mochila na frente do corpo, lia um livro. Ele de óculos escuros, mochila nas costas, mexia no celular. Ambos em pé. Desconhecidos compartilhando o mesmo espaço e mormaço. Mas aí gente, veio a sorte. A sorte dela ler um livro que ele adora. Que já leu e tem muito a falar sobre. Da cadeira alta em que eu estava sentado, segurando três bolsas por educação e curtindo algo que simplesmente não lembro o que era nos fones de ouvido, tive a visão privilegiada de um primeiro passo certeiro. O bendito timing.

Claro que ele engatou um papo sobre o livro, claro que ela sorriu, que ele tirou os óculos e guardou o celular. Claro que ela pediu um spoiler da história, porque ela não era tão apegada assim a esses detalhes, e ele riu. Riu porque ele também não se importava com spoilers. Eu a vi fechando o livro, gesticulando e ouvindo. O vi surpreso, tentando lembrar de personagens, mas, ainda assim, calmo. Eu devo ter perdido algo porque em um segundo o celular dele estava na mão dela e em seguida o cara enfrentava a multidão para descer do ônibus. Não era um assalto. Eu vi a moça acenar em despedida e enfrentar alguns minutos de sorriso bobo até lembrar que lia um livro antes de tudo isso.

E eu? Eu havia pausado minha playlist matinal para assisti-los e não me dei conta do silêncio que reinava até precisar me levantar dali. É massa como afeto preenche o espaço, soa como música. É lindo como algo em comum pode dar espaço para sentimentos um dia. Afeto é mais do que eu vi, mas se manifesta assim, aos poucos, nas minúcias, no interesse.

Tenho a impressão de que, às vezes ou quase sempre, romantizo situações. Me apaixono naquela troca de olhares, naquele quase riso, no comentário nunca ouvido antes. Acho estúpido como fico embasbacado quando reparam algo novo em mim. Mas é por aí. O caminho é estranho mesmo. Nem sempre é o que parece. Nem sempre o olhar foi recíproco, nem sempre o riso existiu e às vezes o comentário foi pura inocência. Às vezes simplesmente não é. Eu, particularmente, não sei guardar afeto, mas tenho aprendido que ele pode assustar. Dá para acreditar nisso?

É uma questão de timing. Você está no ponto, o outro atrasado. Você está a postos, mas o outro já te ultrapassou no ontem. É sorte também. E quando eles se encontram, o timing e a sorte, puts, é vendaval. É a peste de uma ventania tão gostosa de sentir na pele. É a peste do ventinho bom que eu senti hoje acompanhando esse (quem sabe?) futuro casal. Sextas-feiras 13 podem ser belas. Anotem aí.

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